Atividade Física e Envelhecimento

Dr Roberto Dischinger Miranda

Os benefícios  da atividade física para a saúde e longevidade são intuitivamente conhecidos desde o princípio dos tempos. Existem benefícios bem demonstrados sobre vários parâmetros que afetam a saúde e longevidade. Vários documentos já enfatizaram a importância da ação dos profissionais de saúde e entidades governamentais no estímulo a atividade física, assim como seu impacto sobre a saúde pública.

Apesar da associação entre atividade física e saúde estar bem documentada, a maior parte da população é inativa completa ou parcialmente. Nas últimas décadas foi nítido o fenômeno da urbanização na nossa sociedade, a qual é acompanhada naturalmente por um estilo de vida menos ativo. Além disso, podem existir riscos e barreiras individuais relacionados aos exercícios. Desta forma, a abordagem para a prática de atividade física e prescrição de exercício deve ser individualizada, principalmente entre os idosos.

O envelhecimento populacional é uma realidade no nosso país, assim como em todo o mundo. Com o aumento do número de idosos ocorre um aumento das doenças associadas ao envelhecimento, destacando-se as crônico-degenerativas. Talvez a dependência seja o problema que mais afeta a qualidade de vida dos idosos, tanto para realizar as atividades de vida diária (AVD) quanto as atividades instrumentais de vida diária (AIVD), que pode ser consequência de doenças neurológicas, cardiovasculares, fraturas, lesões articulares, entre outras.

A atividade física (AF) regular pode contribuir muito para evitar as incapacidades associadas ao envelhecimento. Seu enfoque principal deve ser na promoção de saúde, mas em indivíduos com patologias já instaladas a prática de exercícios orientados pode ser muito importante para controlar a doença, evitar sua progressão, e/ou reabilitar o paciente.

Independente da idade homens e mulheres possuem ganho similar na força muscular nos treinamentos de resistência, assim como ganho no VO2 máximo no treinamento aeróbico.

Benefícios e Riscos da Atividade Física

A prática regular da AF é acompanhada de inúmeros benefícios, porém alguns riscos devem ser considerados, sendo a avaliação clínica fundamental para que os benefícios sejam maximizados e os possíveis riscos minimizados.

Dentre os benefícios podemos citar:

-         Melhora da sensibilidade a insulina, levando a um melhor controle glicêmico, que pode prevenir o desenvolvimento de diabetes.

-         Lipoproteínas: aumento da fração HDL, diminuição da LDL, redução significativa dos triglicérides, além da redução da atividade aterogênica dos monócitos.

-         Composição corporal: com o envelhecimento há um aumento percentual da gordura corporal e diminuição da massa muscular. A atividade física reduz esta modificação. Além disso ajuda a melhorar a massa óssea quando jovem e prevenir a perda na fase adulta, diminuindo o risco de fraturas.

-         Várias das alterações cardiovasculares e pulmonares que ocorrem com o envelhecimento normal podem ser minimizadas ou revertidas com a prática regular de AF.

-         Fatores hemostáticos são influenciados de várias maneiras pela atividade física, com resultado líquido de redução da atividade pró-trombótica.

-         Aumento na capacidade física, elasticidade e equilíbrio, diminuindo o risco de quedas.

-         Aumento da vasodilatação dependente do endotélio, por aumento da liberação de óxido nítrico. O exercício aeróbico regular previne a perda da vasodilatação dependente do endotélio que ocorre com o envelhecimento e restaura ao normal em adultos e idosos sedentários saudáveis.

-         Melhora na imunidade, que pode diminuir a incidência de infecções e possivelmente de certos tipos de câncer.

-         Melhora da função autonômica, com aumento da sensibilidade dos baroreceptores e da variabilidade da frequência cardíaca.

-         Efeitos benéficos sobre a pressão arterial sistêmica

-         Um dos benefícios mais bem documentados é sobre o risco de doença coronariana e morte, havendo uma relação inversa com a prática de exercício habitual. Isto vem sendo demonstrado tanto para a prática de exercício programado, quanto para as atividades de lazer ou inseridas nas rotinas do dia. Apesar do exercício moderado já apresentar benefício sobre a mortalidade, aparentemente há uma relação dose-resposta, com exercícios mais vigorosos demonstrando um efeito ainda maior.

-         O estudo das enfermeiras sugere que a atividade recreativa confere uma proteção modesta para o câncer de mama.

-         Atividade física, especialmente se vigorosa facilita a interrupção do tabagismo, além de prevenir o ganho de peso que geralmente se associa.

-         Muito importante para os idosos são as evidências de prevenção ou retardo do declínio cognitivo.

Os benefícios do exercício podem ter grande impacto sobre a saúde pública. Vários estudos correlacionaram de forma negativa a atividade e aptidão físicas com a incidência de doença coronariana, câncer de cólon, diabetes tipo 2 e morte. Após um evento cardiovascular, como por exemplo um infarto do miocárdio, a atividade física mantém sua importância. Porém, ela deve estar inserida dentro de um programa global de intervenção sobre os fatores de risco cardiovasculares e a avaliação médica e a atividade física deve ser realizada em ambiente supervisionado por profissional de saúde, apto a monitorar a frequencia cardíaca, pressão arterial e sintomas.

Apesar de todos os benefícios descritos, nas últimas décadas foi documentada uma redução na prática de atividade física e paralelamente vem ocorrendo um aumento na prevalência de obesidade. Além disso quanto maior a idade, menor a chance do indivíduo estar engajado em alguma atividade física regular. Para completar o ciclo os médicos e profissionais de saúde não abordam rotineiramente o problema da inatividade.

Riscos do exercício.

Os riscos potenciais associados a atividade física são variados, porém os benefícios para a saúde são tão grandes que superam em muito os riscos potenciais. Entre eles podemos citar as lesões ortopédicas (a idade é um dos fatores de risco para lesões); Arritmias cardíacas (principalmente nos portadores de cardiopatia); Infarto agudo do miocárdio (basicamente indivíduos não treinados e portadores de múltiplos fatores de risco em atividade física vigorosa); Morte súbita (complicação muito rara, aproximadamente 1 chance para cada 1,5 milhão de episódios de exercício).

Avaliação médica pré exercício

O nível de atividade física que é considerada vigorosa para o idoso não pode ser o mesmo que para o adulto saudável. Esforços de intensidade moderada, na minha opinião já podem ser considerados como vigorosos para um idoso sedentário, mesmo que considerado hígido em uma avaliação inicial.

Avaliação médica inicial é obrigatória para todos os homens com mais de 40 anos, mulheres com mais 50 anos, portadores de doenças crônicas (tal como doença coronariana, pulmonar, diabetes) ou que possuem fatores de risco cardiovasculares (diabetes, hipertensão, tabagismo, dislipidemia, e outros).

Todos os indivíduos com 60 anos ou mais devem ser submetidos a avaliação médica periódica e o clínico ou geriatra que o acompanha deve estar apto a liberar e recomendar a atividade física.

Idosos

O envelhecimento é um processo muito heterogêneo e a recomendação de atividade física para os idosos deve ser individualizada. Além dos benefícios já citados, os idosos ainda apresentam um efeito favorável sobre o equilíbrio e a marcha, diminuindo o risco de quedas e fraturas, menor dependência para realização de atividades de vida diária, melhora na auto-estima e autoconfiança, elevando de forma significativa a qualidade de vida.

Os portadores de osteoartrose também podem e devem realizar AF regular, desde que adaptada a sua condição e os portadores de demência podem ter sua função cognitiva melhorada.

-         A atividade física regular melhora a qualidade e expectativa de vido no idoso

-         Um programa de AF para o idoso deve ser precedido de avaliação médica e deve incluir exercícios aeróbicos, de força muscular, de flexibilidade e de equilíbrio

Orientações para exercícios em idosos:

-         Realizar exercício somente quando houver bem estar físico

-         Usar roupas e calçados adequados

-         Evitar fumo e o uso de sedativos

-         Não exercitar em jejum. Usar carboidratos antes do exercício

-         Respeitar os limites pessoais, interrompendo se houver dor ou desconforto

-         Evitar extremos de temperatura e umidade.

-         Iniciar a atividade lenta e gradativamente para permitir adaptação.

-         Hidratação adequada antes, durante e após a atividade física.

Idoso Frágil – É aquele indivíduo portador de limitações, doenças crônicas, ou que está em extremo de vida, e que é mais susceptível a intercorrências. Mesmo os idosos classificados como frágeis também se beneficiam de AF regular, porém com objetivos diferentes. Pequenos ganhos funcionais podem ser muito importantes para preservar sua independência dentro de casa. A programação de AF para eles deve ser dividida em sessões de curta duração (5 a 10 minutos) realizadas 2 ou mais vezes ao dia.


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